segunda-feira, 13 de julho de 2009

"Leite Derramado", Chico Buarque

Nunca leio resenhas, sejam elas de discos, filmes ou livros. Acho um saco, e cago pra opinião de quem as escreveu. Mas, por algum motivo que desconheço, gosto de escrever algumas, bem sucintas, seja para recomendar aos amigos, seja para dizer "fiquem longe disso!" Vai entender...

Já começo dizendo que não sou fã do Chico Buarque músico. Primeiro porque samba não é a minha praia, mesmo; segundo, porque acho que há sobre ele - e suas letras - certo exagero, com o qual nem o próprio parece concordar; terceiro, porque me irrita bastante essa obrigação pseudo-universitária de ter que gostar de Chico Buarque. Na ânsia de marketear uma pretensa intelectualidade, algumas pessoas procuram me fazer sentir um criminoso por não achar que Chico é Zeus. Enfim, o cara tá aí, tem história, e tem um mundo de gente que adora, e outro mundo que diz que adora. Não sou eu quem vai macular a imagem do multiartista que ele inegavelmente é.

O Chico Buarque escritor já me apetece mais. Por isso, não hesitei em pegar emprestado Leite Derramado (2009, Cia das Letras).

Assim como o antecessor Budapeste, o livro é bem curto, 195 páginas, coisa para ler em um, no máximo dois dias. Trata-se do relato, em primeira pessoa e narrativa não-cronológica, de um moribundo muito velho, à cama de um hospital. Fala da infância e adolescência abastadas, durante as quais frequentou o Palácio Imperial, da família tradicional, da ex-esposa e da decadência, que culminou na ruína financeira e social. O pano de fundo, como não poderia deixar de ser, é o Rio de Janeiro, desde a primeira década do século passado até os dias de hoje.

A princípio, é um enredinho bem batido. Contudo, o livro é bastante interessante, pela forma com que a história de uma vida é contada. A narrativa é gostosa, simples e coloquial. O velho tem lapsos de memória, às vezes contando duas ou três versões para os mesmos fatos, o que, ao invés de embaralhar a estória, dá a ela um ar de veracidade e, por que não, compaixão pelo narrador.

Nas primeiras 50 páginas, fiquei com receio de que o livro não se desenvolvesse, pois parecia caminhar em círculos, cheio de estórias randômicas e aparentemente desconectadas entre si. “Ah meu Deus, mais um livro conceitual sem sentido”, cheguei a pensar comigo, que detesto “arte” (e aqui vão mil aspas) conceitual.

Outro ponto positivo é a perspectiva que se tem sobre uma vida no fim. Eu sou particularmente interessado nos efeitos da velhice, principalmente na visão que o mais velho tem sobre os dias de hoje em relação aos de ontem. Sou capaz de passar o dia todo ouvindo meu avô descrever as partidas de futebol que ele assistia, em cima de uma árvore, na época do Pelé. Pra mim, o livro foi um prato cheio.

Portanto, Leite Derramado não é a coisa mais genial já publicada por um ser humano, mas é um excelente livro, daqueles que eu posso reler tranquilamente num futuro mais ou menos distante e que, sem o menor traço de dúvida, fixa de vez o Chico Buarque como um dos principais romancistas brasileiros da atualidade. Ah, e é um livro bem despretensioso, e talvez seja este o motivo que faz dele uma excelente leitura. Aliás, tratando-se de Chico Buarque, a pretensão geralmente vem dos fãs.