sábado, 9 de abril de 2011

O Petróleo no Juruá e as contradições entre desenvolvimento e preservação na Amazônia

Leandro Altheman

Para quem nunca ouviu falar sobre a prospecção de petróleo no Juruá, pode ficar a sensação de estar caindo de pára-quedas no assunto. Não tem importância, a grande imprensa brasileira sempre chega tarde na Amazônia e os assuntos só viram destaque nacional depois que morre um Chico Mendes ou uma Doroth Stang, etc...
Mas, vamos lá: a região do Vale do Juruá fica no extremo ocidente do Brasil. É a nossa fronteira Oeste, tida por muitos biólogos como uma das regiões de maior biodiversidade do planeta, justamente por estar localizada em uma área de transição chamada Amazônia Pré-Andina.
Por outro lado, vive nesta região, uma população de cerca de 200 mil pessoas em uma espécie de isolamento compulsório, pagando um dos custos de vida mais altos do país por conta do isolamento e da economia pífia baseada na folha de pagamento do funcionalismo público, em uma agricultura arcaica, uma pecuária predatória e pouco produtiva e, dizem as más línguas, tráfico de drogas.
Ocorre que desde a década de 70, a Petrobrás faz estudos sobre a viabilidade da exploração de Petróleo na Região. Os estudos foram interrompidos por três décadas e foram retomados há cerca de três anos.
Enquanto a população urbana toma a notícia como alvissareira, as comunidades indígenas (vivem cerca de 12 povos indígenas na região) , assistem com preocupação a prospecção ganhar corpo na região.
O recente pronunciamento do coordenador da Organização dos Povos Indígenas no Juruá, de que o Movimento Indígena seria contra causou uma série de protestos, vindos especialmente da classe média urbana de Cruzeiro do Sul, maior pólo regional da região do Vale do Juruá.
Os protestos podem parecer estranhos para quem não é da região e não paga R$3,50 pelo litro da gasolina, ou R$8,90 pelo kg do tomate “importado” do sul do país. A maioria da juventude da região de “maior biodiversidade do país”, não tem sequer uma garantia de perspectiva de futuro, uma vez que só sobram uns poucos cargos públicos ou se empregar no pouco atraente comércio local, formado por uma pequena oligarquia.
Do lado dos indígenas e da população ribeirinha, os problemas ambientais gerados pela prospecção de petróleo poderiam causar a escassez de caça e pesca, que levariam centenas ou talvez até milhares de pessoas migrarem para as já pobres cidades da região amazônica para mendigar nas ruas ou tentar um sub-emprego para ter o que comer.
Há quem defenda que o Petróleo traria menos danos ao meio ambiente do que a atual “economia” – a cada ano, os pequenos agricultores podem desmatar até três hectares para plantar mandioca para produção artesanal de farinha, que é diga-se de passagem, uma das melhores do Brasil, mas que não paga sequer a diária do agricultor. Enquanto isso, a pecuária, sem poder desmatar novas áreas vai sendo sufocada a cada ano com pastos cada vez mais improdutivos.
E o imenso potencial de pesquisa que seria esta região para buscar novos medicamentos e cosméticos por enquanto continua apenas, o que sempre foi: apenas potencial e como potencial não é capaz de transformar a realidade das milhares de pessoas que vivem nesta região.
É importante que a sociedade nacional tome conhecimento das contradições desta realidade, não apenas da floresta, suas belezas e riquezas, mas também da diversidade cultural e de uma sociedade que como todo o resto do planeta, almeja o acesso ao desenvolvimento.
Leandro Altheman é Jornalista em Cruzeiro do Sul- AC